Permitam-me falar-vos de um livro que é, ele próprio, um exercício de memória e um desafio à certeza. É sempre a hora da nossa morte amém, da notável Mariana Salomão Carrara — voz que se impõe na literatura brasileira contemporânea com prémios como o São Paulo de Literatura —, não é uma leitura comum; é uma experiência íntima de desmontagem da alma .
Conhecemos Aurora. Setenta e tantos anos, antiga professora, encontrada à beira de uma estrada, a segurar a coleira vazia de um cão e a chamar por "Camila" . Levada para uma casa de repouso, a sua mente, afectada por aquilo que um médico chama de "amnésia poética", tornou-se um palco onde múltiplas vidas coexistem . Para a assistente social Rosa, Aurora desfia, em primeira pessoa, as muitas versões da sua história .
Teve uma filha chamada Camila? Ou Camila foi a sua amiga de uma vida inteira? Em cada sessão, uma nova narrativa emerge: Camila morreu num acidente de avião, de tétano, engasgada com uma bala... A morte da suposta filha multiplica-se em dezenas de possibilidades trágicas, num ritual obsessivo que é, ao mesmo tempo, hilariante e devastador . Entre estas memórias, surgem outras figuras constantes: o ex-marido António, que trabalhava no Instituto Médico Legal durante a ditadura; a mãe ausente; e os fiéis cães Perdoai e Ofendido .
A genialidade de Carrara está em nunca nos dar a chave. Nunca saberemos qual versão é a "verdadeira". O que nos é oferecido, com um humor ácido e uma prosa que captura a oralidade e o devaneio da mente, é uma reflexão vertiginosa: não seremos todos nós um conjunto de versões inacabadas? Cada escolha que fazemos não é, também, um pequeno nascimento e uma pequena morte de um outro "eu" que poderia ter sido?
Mais do que um romance sobre a morte, este é um livro sobre o seu antídoto mais poderoso: a narração. Contar histórias, mesmo as mais confusas e dolorosas, é o que exorciza o medo do fim e, sobretudo, o medo da solidão . É um livro que agarra o leitor, não pela resolução de um mistério, mas pela forma corajosa e comovente como nos faz encarar as fabulações que construímos para sobreviver.
Para os apreciadores de Clarice Lispector ou de Lygia Fagundes Telles — referência confessada da autora —, esta obra é um encontro com uma herdeira moderna desse olhar profundo e feminino sobre o mundo
Detalhes do produto
- Editora : Editora Nós
- 1ª edição (25 agosto 2021)
- Idioma : Português do Brasil
- Capa comum : 480 páginas
- ISBN-13 : 978-6586135374
- Dimensões : 12.5 x 1 x 19 cm
É sempre a hora da nossa morte amém - Mariana Salomão Carrara
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