Ah, o condomínio. Aquele microcosmos onde a vida privada faz questão de ser um espetáculo público, ainda que ninguém admita. E se alguém resolvesse, digamos, instalar câmaras nos cantos onde as câmaras de vigilância (oficiais) não alcançam? Não para vigiar, mas para escrever. É essa a proposta indecorosa e genial de Renato Tardivo em Edifício Ouroboros.
Imagine: um prédio de classe média. Temos a porta de serviço, as conversas das diaristas, a academia vazia, o cheio de churrasco na varanda, o porteiro que vê mais do que devia nos monitores. Temos também apartamentos. Muitos apartamentos. E em cada um, uma história que, como um cheiro de frito, escapa pela fresta da porta e se mistura no corredor.
Aqui, duas senhoras negociam uma vaga de garagem com a tensão de um tratado diplomático. Ali, um miúdo é discriminado pela cor da pele. No andar de cima, dois adolescentes trocam carícias furtivas. A personagem secundária do conto anterior torna-se a protagonista do seguinte. São vidas paralelas que, vistas de cima, formam um padrão – um desenho intrincado que só se revela completamente na reunião final de condomínio, com um desfecho que vai deixá-lo a olhar para as paredes da sua própria casa com suspeita renovada.
Renato Tardivo, que é psicanalista e escritor, não usa as lentes do moralismo. Usa as do curiosíssimo e do poético. Ele sabe que o verdadeiro drama não está no que é gritado, mas no que é sussurrado; não na fachada impecável, mas na greta quase invisível da pintura.
Edifício Ouroboros é isso: uma visita guiada ao avesso das fachadas. Uma prova de que o mistério mais profundo pode estar a acontecer no apartamento 304, neste exato momento, enquanto você lê esta linha. Tem coragem de tocar à campainha?
Detalhes do produto
- Editora : Reformatório (1 janeiro 2022)
- Capa comum : 112 páginas
- ISBN-13 : 978-6588091548
Edifício Ouroboros - Renato Tardivo
Até 5 dias úteis.



































