“Minha vida é tão confusa quanto a América Central”, cantava uma famosa banda pop brasileira dos anos 1980. Com alguma razão. Naquela época, alguns países do istmo estavam mergulhados em guerras civis. Outros sofriam intervenções estadunidenses. Outros, aparentemente imunes à vizinhança, gozavam de relativa estabilidade. A Guerra Fria mostrava suas garras na região. A alcunha “república das bananas” chegava ao auge, e companhias gringas como a United Fruit mandavam e desmandavam nos governos. Certamente, a “confusão” que o poeta sentia ao olhar para a América Central quarenta anos atrás perdura entre os brasileiros. Não há mais guerrilhas. Os movimentos revolucionários ficaram para trás. Mas os jornais constantemente trazem notícias sobre ondas intermináveis de migrantes cruzando as sucessivas fronteiras centro-americanas com destino aos Estados Unidos. Os exércitos nacionais, outrora financiados por Washington para combater a insurgência popular, passaram a prender massivamente pessoas acusadas de integrar as maras ou pandillas, como são conhecidas as gangues locais. O narcotráfico parece estar instalado nas mais altas rodas do poder. E um presidente high-tech desponta como grande farol da extrema direita latino-americana, quiçá mundial. Se a “confusão” é fruto do desconhecimento, o livro que você tem em mãos condensa um inédito esforço coletivo para compreender a realidade da América Central. Longe de ser apenas um pedaço de terra que separa as Américas do Sul e do Norte, a região é palco de lutas populares e indígenas que resistem historicamente à ação de interesses geopolíticos que pretendem transformá-la em mera rota de passagem, destino turístico exótico ou zona de sacrifício para o capitalismo transnacional.
A historiadora Emília Viotti da Costa dizia que a América Central é uma caricatura da América Latina. Ou seja: os traços que caracterizam o subcontinente se observam no istmo de maneira exagerada. Esse “exagero” não é uma condição fortuita, mas produto de uma história marcada pela colonização europeia entre os séculos XVI e XIX, pelos processos de independência, pela projeção imperial dos Estados Unidos e pelas diversas formas de resistência de comunidades originárias, camponesas e urbanas. […] Com o fim da Guerra Fria, a tensão entre revolução e contrarrevolução se dissipou. Se a América Central continua a revelar a América Latina em seus extremos, apontando tendências, o que a região nos revela sobre nós e o mundo na atualidade? Este livro parte da premissa de que a América Central é um pedaço da história e do presente latino-americano que tem muito a nos ensinar. É uma região que precisa ser conhecida por si mesma, mas também porque condensa dilemas que atravessam o Brasil e o mundo. A América Central oferece um prisma dramático, mas necessário, para pensar desafios e dilemas da contemporaneidade. […] A América Central condensa dilemas da contemporaneidade, mas também engendra múltiplas lutas por um mundo em que caibam muitos mundos. Se a revolução clássica saiu da agenda, outros mundos habitam em uma miríade de resistências territoriais, frequentemente protagonizadas por populações originárias que cultivam formas de vida não capitalistas, informadas por relações holísticas entre os seres humanos e a natureza. Na América Central, há um tesouro de experiências necessárias para o futuro do mundo — mas também pairam a repressão e a morte provocadas por esta luta pela vida. […] Desde o final do século XX, a diplomacia brasileira focalizou a América do Sul em detrimento da América Latina. […] Nossa perspectiva é diferente: entendemos que a atualidade da noção de América Latina deriva de um passado comum que se reatualiza nos dilemas do presente. Como dizia o cubano José Martí, temos de nos conhecer como quem vai lutar juntos. Este livro pretende fortalecer o conhecimento que fecunda a luta que nos irmana — na esperança de que um dia, por trás de qualquer caricatura, revele-se um sorriso.
— Os organizadores, na Introdução
Fabiana Rita Dessotti - Possui doutorado em Ciências Sociais pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP (2011), mestrado em Economia Política pelo Programa de Pós Graduação em Economia Política da PUC/SP (2002) e graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS (1994). Atualmente, é professora do curso de Relações Internacionais, coordenadora e pesquisadora do programa de extensão e pesquisa Realidades Latino-Americanas e colaboradora e pesquisadora do Laboppi - Laboratório de Políticas Públicas Internacionais da UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Economia Internacional, Economia Política Internacional e Atuação Internacional das Cidades.
Fabio Luis Barbosa dos Santos é professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da Universidade de São Paulo (USP). É autor de Além do PT: a crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana (2017) e Uma história da onda progressista sul-americana (2019), coautor de O médico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano e seus opostos (2021) e coorganizador de Entre a utopia e o cansaço: pensar Cuba na atualidade (2024) e América Central: desafios e resistências no século XXI (2025), todos publicados pela Elefante. Participa do coletivo Desmedida do Possível e do Berta Coletivo Latinoamericanista.
Detalhes do produto
- Editora : EDITORA ELEFANTE; 1ª edição; 4 março 2026
- Idioma : Português do Brasil
- Número de páginas : 408 páginas
- ISBN : 9786560081147
- Dimensões : 13 x 3 x 21 cm
América Central: desafios e resistências no século XXI - FABIANA RITA DESSOTTI
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