Caro leitor, imagine-se no ano de 1964. Sob o céu desanuviado da Califórnia, os astrónomos do Observatório Palomar dedicam-se às suas rotinas pacíficas. Até que, numa revelação que trespassa a frieza dos dados, uma descoberta os paralisa: uma imensa mancha circular, uma nuvem de escuridão perfeita, avança pelo cosmos, obliterando a luz das estrelas. Não é um mero fenômeno. É uma presença. E dirige-se, com uma calma aterradora, para o coração do nosso sistema solar.
Esta é a premissa de "A Nuvem Negra", a obra seminal de Sir Fred Hoyle – não apenas um escritor, mas um dos astrofísicos mais brilhantes do seu tempo, membro da Royal Society e homem que cunhou o termo "Big Bang" em célebre oposição. Hoyle empresta ao romance a crueza e o rigor do laboratório. As páginas são entremeadas com fórmulas e diagramas, os diálogos são trocas de hipóteses verificáveis, e o terror nasce não do fantástico, mas da extrapolação científica mais lúcida.
Contudo, caro leitor, permita-me uma observação. A verdadeira genialidade de Hoyle não reside na ameaça extraterrestre, mas no espelho que ela levanta à humanidade. Enquanto os cientistas, liderados pela figura perspicaz do professor Kingsley, lutam contra o tempo para decifrar a inteligência por trás da nuvem, deparam-se com um obstáculo igualmente formidável: a máquina política. Os governos, movidos pelo pânico e pelo secretismo, preferem ignorar o aviso à sua porta. Soa-lhe familiar?
Publicado originalmente em 1957, "A Nuvem Negra" é uma profecia literária. Lê-lo hoje é assistir a um ensaio, há seis décadas atrás, da nossa atual crise climática e do fosso abissal entre o alerta científico e a ação política. É um thriller cerebral que dispensa naves guerreiras para criar um suspense quase insuportável, questionando a nossa arrogância perante o universo desconhecido.
Esta edição da Todavia, com tradução de Érico Assis, traz para o leitor português um clássico há muito ausente das prateleiras, agora em 272 páginas de pura tensão intelectual. Para o apreciador de ficção científica clássica, do hard sci-fi que respeita a inteligência do leitor, ou para quem reflete sobre os perigos de desprezarmos a voz da ciência, esta obra não é uma simples leitura. É uma experiência obrigatória.
Detalhes do produto
- Editora : Todavia
- 1ª edição (7 fevereiro 2022)
- Idioma : Português do Brasil
- Capa comum : 272 páginas
- ISBN-13 : 978-6556922409
- Dimensões : 13.5 x 1.6 x 20.8 cm
A nuvem negra - Fred Hoyle
Até 5 dias úteis.



































