Há histórias que são um murro seco no estômago. Ninguém Matou Suhura, de Lília Momplé, é uma dessas raras narrativas. Publicado originalmente em 1988 e agora reeditado pela editora portuguesa Língua Mátria, este romance breve é um retrato feroz da sociedade colonial na Ilha de Moçambique, visto pelo prisma da condição feminina e das tradições que, tantas vezes, se transmutam em armas de opressão.
A trama é tecida com a precisão de uma renda e a força de uma arenga: Suhura morre. Todos sabem quem a matou. Mas a justiça dos homens, essa invenção falível e tantas vezes cega, recusa-se a ver o óbvio. É então a avó, Rosa, que, nas sombras da noite e do silêncio imposto, decide invocar a justiça antiga – a justiça que não precisa de códigos escritos porque habita a memória da terra e o respeito pelos mortos.
Lília Momplé, figura central das letras moçambicanas e vencedora do Prémio José Craveirinha, não nos oferece consolos fáceis. A sua escrita é límpida como a água que banha a ilha, mas cortante como os recifes. Ao virar a última página, o leitor não encontra um final arrumado. Encontra, isso sim, um espelho: o espelho de uma sociedade onde o valor de uma mulher continua a ser medido pelo silêncio que lhe impõem.
Ninguém Matou Suhura é leitura obrigatória para quem quer compreender as feridas profundas de Moçambique e, por arrasto, de toda a lusofonia. Na LULALIVROS.PT, trazemos este clássico até si. Leia-o. E depois não finja que não sabe.
Lília Maria Clara Carrière Momplé nasceu a 19 de março de 1935 na Ilha de Moçambique, província de Nampula . A sua ascendência reflete o caldeirão multicultural da região: uma mistura de raízes macuas, francesas, indianas, chinesas e mauricianas .
Foi em Lisboa que se formou em Serviço Social pelo Instituto Superior de Serviço Social, regressando depois a Moçambique onde exerceu durante muitos anos a profissão de professora . Esta experiência no ensino viria a marcar profundamente a sua escrita, conferindo-lhe uma atenção singular às questões educacionais e sociais.
A sua vocação literária despertou cedo, alimentada pelas histórias que a avó — que nem sabia ler nem escrever — lhe contava. Nesses relatos, os heróis não eram os poderosos convencionais, mas sim criaturas frágeis, numa inversão que viria a caracterizar a própria obra de Momplé . Mais tarde, a leitura dos poetas portugueses Eça de Queirós e Fernando Pessoa, e sobretudo do moçambicano José Craveirinha — o primeiro a colocar personagens africanas como protagonistas na sua poesia — consolidou a sua decisão de se entregar à literatura .
Entre 1995 e 2001, foi secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, tendo ainda representado o seu país como membro do Conselho Executivo da UNESCO entre 2001 e 2005 .
A sua obra, embora não extensa, é de uma densidade notável. Publicou Ninguém Matou Suhura (1988), Neighbours (1995) e Os Olhos da Cobra Verde (1997) . Nos seus textos, explora sem complacência os papéis tradicionais da mulher, as expectativas que a sociedade lhe impõe, as dificuldades que enfrenta, e as tensões de raça, classe e origem étnica .
Recebeu o Prémio Caine para Escritores Africanos em 2001 com o conto "O Baile de Celina" e, em 2011, foi distinguida com o Prémio José Craveirinha de Literatura, o mais importante galardão literário moçambicano . Vive atualmente em Maputo com o seu marido
Detalhes do produto
- Editora : Língua Mátria
- 1ª edição ( março de 2026 )
- Idioma : Português
- Capa comum : 117 páginas
- ISBN-13 : 9789893611654
Ninguém Matou Suhura - Lília Momplé
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