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Permitam-me apresentar-vos um artefacto literário tão peculiar quanto o seu título promete: "O Crime do Bom Nazista", da pena de Samir Machado de Machado. Não, não se assustem com a aparente contradição do nome. O autor, um gaúcho de Porto Alegre com um nome que é um pentatlo de repetições familiares, não nos traz um manifesto, mas um labirinto. E que labirinto mais claustrofóbico ele escolheu: as entranhas do majestoso e vulnerável dirigível LZ 127 Graf Zeppelin, a cruzar os céus do Brasil em 1933.

 

Aqui, a fórmula da Rainha do Crime, a nossa eterna Agatha Christie, é ressuscitada com um sopro de ácido nítrico histórico. Temos o assassinato impossível — um homem envenenado num lavabo trancado por dentro. Temos o cenário confinado — uma "baleia" de metal cheia de gás inflamável, suspensa entre o nazismo nascente e os trópicos. E temos, claro, uma coleção de suspeitos mais aromáticos que um queijo limiano deixado ao sol: um médico eugenista, uma baronesa carregada de preconceitos, um jovem crítico de arte. Todos, pasme-se, com simpatias mais ou menos declaradas pelo novo regime alemão.

 

O detective, um tal Bruno Brückner com um broche de suástica no casaco, tem de deslindar o caso sem causar um incidente diplomático. Mas, caro leitor, a verdadeira investigação é a vossa. Machado de Machado, num gesto de fina malícia, convida-vos não a apontar o dedo ao assassino, mas a questionar cada máscara, cada convicção proferida durante um jantar elegante a milhares de metros de altitude. O morto, Otto Klein, esconde segredos que o tornam um alvo perfeito para aquele círculo: judeu? homossexual? comunista? A questão deixa de ser apenas "quem o matou?" para se tornar "que ideia o matou?".

 

E é aqui que o dirigível deixa de ser um mero palco exótico. Transforma-se na metáfora perfeita: uma estrutura titânica, avançada, mas frágil e cheia de veneno inflamável. Uma bolha de civilização a pairar sobre o abismo. Não é difícil, numa leitura atenta, sentir o ar rarefeito de 1933 a misturar-se estranhamente com o ar pesado dos nossos próprios dias. O autor, num ato que é tanto literário quanto catártico, escreveu este livro para "trabalhar a frustração com o que via ao seu redor". E as faíscas desse atrito entre passado e presente iluminam passagens arrepiantes, onde discursos de ódio de quase um século soam com uma familiaridade perturbadora.

 

O livro é uma peça de relojoaria narrativa, vencedora do Prémio Jabuti de 2024 na categoria de Romance de Entretenimento — um título que, no caso, é modesto. É entretenimento sim, mas daquela espécie superior que não diverte apenas os sentidos, mas os incendeia. É uma homenagem ao prazer puro do whodunit clássico, armada com a ferramenta afiada da consciência histórica.

 

Portanto, se apreciam um enigma bem construído, se não temem que a literatura vos force a olhar para o espelho da História (e do presente), e se a ideia de um thriller político num balão dirigível vos desperta a curiosidade, embarquem. A viagem, garanto-vos, é turbulenta, incómoda e absolutamente viciante. No fim, perceberão a ironia ácida e perfeita contida nas últimas palavras do livro, que explicam, finalmente, o título. E que, por uma questão de decoro e para não estragar o prazer da descoberta, não vos revelarei aqui.

 

Uma obra para ler de um fôlego, e para pensar muito depois de a fechar.

 

Detalhes do produto

  • Editora ‏ : ‎ Todavia
  • 1ª edição (9 março 2023)
  • Idioma ‏ : ‎ Português do Brasil
  • Capa comum ‏ : ‎ 128 páginas
  • ISBN-13 ‏ : ‎ 978-6556924083
  • Dimensões ‏ : ‎ 13.5 x 1.1 x 20.8 cm

O crime do bom nazista - Samir Machado de Machado

SKU: 9786556924083
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