Preparem os vossos sentidos, se é que os têm, ou pelo menos a vossa paciência, que por vezes é o único órgão de perceção que nos resta, para uma história, ou melhor, para uma previsão, sim, uma previsão astronómica feita por um homem que não podia ver as estrelas, mas que garantia, com uma precisão que irritava todos os astrónomos da Europa, que no dia 30 de junho de 1666, precisamente ao meio-dia, a Lua se interporia diante do Sol durante exatamente quatro segundos, mergulhando o continente numa escuridão breve e total, uma escuridão que, segundo ele, seria incomparável na nossa História, o que nos faz pensar, naturalmente, sobre quantas escuridões incomparáveis uma História pode realmente ter.
E quem se desloca, intrigado, até uma torre remota na Boémia para ouvir as razões, ou a falta delas, deste profeta cego? Ninguém menos que um jovem Gottfried Wilhelm Leibniz, sim, o futuro filósofo, o futuro inventor do cálculo, mas aqui, com dezanove anos, ainda apenas um jovem assombrado pela possibilidade de que o mundo fosse, no fundo, incompreensível. E o que ele encontra é um astrónomo, não apenas cego, mas completamente sem olhos, que passa as três horas que antecedem o eclipse prometido a narrar uma saga familiar que envolve um pai escultor obcecado por uma cabeça mecânica perfeita para o Imperador Rudolfo II, intrigas palacianas dos Habsburgos (cujos nomes, confesso, são quase tão difíceis de distinguir como as estrelas), e uma sucessão de desventuras que nos levam a questionar, página após página, se somos nós que observamos o universo ou se é o universo, com a sua lógica cruelmente cómica, que nos observa a nós, através de órgãos dos sentidos que são, no mínimo, defeituosos.
Adam Ehrlich Sachs, autor celebrado pela crítica internacional, tece aqui a sua primeira incursão no romance, criando uma narrativa que é simultaneamente uma fábula histórica, um tratado filosófico disfarçado e uma comédia profundamente absurda. Com uma prosa que se enrola sobre si mesma em frases labirínticas e digressões hilariantes, à maneira do grande Thomas Bernhard, o livro explora o abismo entre o que vemos, o que acreditamos ver e o que realmente é. É uma leitura para quem aprecia o humor na intelectualidade e a intelectualidade no humor, para quem suspeita que as maiores verdões sobre a condição humana se escondem, por vezes, nas previsões mais improváveis feitas pelos profetas mais inesperados. No final, resta-nos a dúvida: será sobre astronomia? Será sobre família? Ou será, afinal, um tratado disfarçado sobre a impossibilidade gloriosa de duas pessoas, ou duas monadas, como diria Leibniz, se entenderem perfeitamente? Só lendo para saber. Ou, quiçá, mesmo lendo, ficaremos na mesma. Essa é uma das suas graças.
Detalhes do produto
- Editora : Todavia
- 1ª edição (14 janeiro 2022)
- Idioma : Português do Brasil
- Capa comum : 224 páginas
- ISBN-13 : 9786556922232
- Dimensões : 13.5 x 1.4 x 20.8 cm
Os órgãos dos sentidos - Adam Ehrlich Sachs
Até 5 dias úteis.



































