Vejam, vejam, mais um pequeno artefato explosivo a desembarcar nos nossos escaparates. Chega-nos, envolto numa capa presumivelmente discreta, "Os Coadjuvantes", da senhora Clara Drummond. Diz-se, pelos corredores das letras, que é uma obra "cómica e melancólica, sensível e cruel". Expressões que, convenhamos, já cheiram a cliché de catálogo. Mas, atenção: o que aqui se apresenta não é um mero amontoado de lugares-comuns bem-intencionados.
Temos uma protagonista, Vivian, uma curadora de arte de trinta e poucos anos, cujo currículo impecável é sustentado, como não poderia deixar de ser, pelo pecúlio familiar. Vive entre Rio e São Paulo, circula entre vernissages e copos de vinho, num universo onde o prestígio cultural serve de ornamento a uma fortuna bem consolidada. Drummond, que se assume como uma "antropóloga frustrada", esquadrinha este meio com um olhar que alterna entre o fascínio e o bisturi. O resultado, asseveram alguns, é um dos retratos mais precisos e mordazes de uma certa elite brasileira jovem e narcísica a surgir nos últimos tempos.
A trama, se é que podemos chamar-lhe assim, ganha um rumo sombrio quando a vida de Vivian colide com a de Darlene, uma vendedora ambulante que trabalha à porta do seu edifício. Não espere, caro leitor, uma narrativa de redenção ou de heroísmo social. A grande sacada do livro, dizem os entendidos, está precisamente em recusar esse caminho fácil. Em vez disso, Drummond tece o "elo invisível entre o conforto financeiro e a violência que mora ao lado", forçando-nos a contemplar, através da consciência turva e autoindulgente de Vivian, os mecanismos de desconexão que permitem ao privilégio prosperar ao lado da miséria.
O tom é uma mistura desconcertante. A autora é aplaudida pelo seu humor ácido, capaz de provocar gargalhadas em cenas de profundo desconforto. Vivian é uma personagem contraditória: cínica, auto consciente da sua posição, mas incapaz (ou sem vontade) de dela escapar. As suas tiradas sobre a superficialidade, a performance social e a hipocrisia do mundo das artes são, ao que parece, de uma precisão cirúrgica. Marcelo Pen enquadra a obra numa "tradição que flagra com tintas satíricas, entre o riso e a crueldade, o esboroamento de certa classe proprietária brasileira", legado que remonta a um Machado de Assis.
É, portanto, um livro curto (112 páginas), mas assertivo. Um petardo que satiriza não apenas os "podres de ricos" brasileiros, mas também a universal "crueldade das elites". Serve como espelho desconfortável para alguns e como janela reveladora para outros. Se gosta da ferina inteligência de um Ottessa Moshfegh ou da sátira social afiada, talvez encontre aqui a sua próxima leitura. Ou, quem sabe, o próximo tema da sua sessão de terapia – a autora confessa que ouve muitos relatos nesse sentido.
Compre. Não compre. Leia por mero entretenimento cáustico. Leia como um documento sociológico. Mas, se decidir fazê-lo, prepare-se: pode acabar com alguns cacos de vidro filosófico enterrados sob a pele.
Ficha Técnica:
Autor: Clara Drummond
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9786559212316
Nº de Páginas: 112
Dimensões: 14x21 cm
Os Coadjuvantes - Clara Drummond
Até 5 dias úteis.



































