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um dia, desses tantos que se cabem em algum calendário,
estará a data da morte de meu pai, o acidente de um amigo
ou o meu próprio,
relembrarei por dias, meses e anos,
nesses calendários chamados de folhinhas por minha avó,
que era cega e me pedia para ver que dia estávamos
e que desde 20 de setembro de 1996, não me pede mais nada.

 

Aquilo que se faz pela apática busca da beleza resulta na assepsia da própria vida. Portanto, ao falar deste livro, não evocarei o azul atlântico das distâncias que constroem a língua estrangeira de todos os lugares, nem as montanhas cobertas com o verde da primavera tecida nos olhos da infância ou algum carnaval dos sentidos perdido na linha da história. Tudo caberia aqui, mas pareceriam palavras grandes como tantas outras que escutamos nesse farfalhar de asas sem rumo que estamos imersos.

Para quem está se afogando crocodilo é tronco foge dos estereótipos possíveis numa festa erigida no que há de mais marginal, interior e real, é o bailado de Deus morto, o lixo esculpindo o sublime, a ressaca da manhã seguinte. A experiência do poeta Wladimir Vaz Mourão é da falta de pertencimento de ser de alguma parte alguma, do moleque recém-chegado da várzea distante e cujo sotaque e português era motivo de chacota entre os colegas, futuros acadêmicos — homogeneizadores do conhecimento —, até o homem que encontra Dionísio nas seringas de heroína jogadas pela rua suja e entende que isso tem a potência de mil declarações de amor.

Agora que as cerejas apodrecem no fundo de nossas bocas, sabemos que relembrar os amigos mortos será feito no calendário de nossas cegueiras, pois cada poema das páginas que se seguem possuem o peso de um dia riscado. Desfalecem as ilusões: fora da tormenta, somos apenas autofagia, jamais o outro, nunca a maravilhosa fome compartilhada do que nos é mais humano.

Podemos ver também nos escritos do autor a consciência da classe trabalhadora, dos explorados, daqueles que se negam a entender a realidade como patrimônio privado e a arte sendo a representação da fartura. Nas lentes brutais do capitalismo, poucas fotografias possuem cor. Os desajustes dos versos desta obra são pequenas inserções no repositório fastidioso do cotidiano.  E, quando o medo se releva de julgarem que tais intentos são o da mariposa enganada com a lâmpada e a sua falsa luz, a coragem se revela: fechem as portas, os países, os corações, o voo persistirá até o limite do sol.

Tu que estás com esse pedaço de tempo nas mãos, abra-o cavando na terra para depositar o teu próprio corpo e, no vasto céu que fitas, recebas os abutres pousados pelo naco de tua carne com a mesma alegria da chegada das aves carregando os mais doces frutos. Assim, tu estarás pronto a repensar teus sentidos.

Ao poeta, amigo, guerrilheiro, inventor de onças, digo-te: já sou homem velho, mas sigo pouco sábio. No entanto já consigo desejar o teu sorriso.

Tiago Fabris Rendelli (escritor e editor)

 

Wladimir Vaz Mourão nasceu em 1986, no interior de São Paulo, é editor, fotógrafo e músico. Autor de Para quem está se afogando, crocodilo é tronco (2023), Black shadow that overshades me (2018), e gravou o disco Ixé (2022), com a banda Bujiwa. É fundador e editor da editora Urutau. Vive no Barreiro (Portugal). 

 

Detalhes do produto

  • Editora ‏ : ‎ Editora Urutau; 1ª edição ( 2023)
  • Idioma ‏ : ‎ Português do Brasil
  • Capa comum ‏ : ‎ 68 páginas
  • Isbn: 978-65-5900-510-9
  • Dimensões ‏ : ‎ 13x16,5 cm

Para quem está se afogando crocodilo é tronco - Wladimir Vaz Mourão

SKU: 9786559005109
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