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Preparem o espírito. Não venham a este livro à procura de consolo ou de respostas fáceis. Venham com o estômago forte e a mente aberta, porque Michel Laub, esse cirurgião literário de Porto Alegre, não veio para fazer pontos de sutura. Veio para abrir em canal e expor, sob a luz crua do palco, o tumor da nossa época: o ódio que nos corrói por dentro e nos divide em estados irreconciliáveis.

 

A história, ou melhor, o caso que aqui se investiga, tem o cheiro ácido de notícia de última hora e a densidade de um trauma familiar. Uma cineasta alemã, ela própria marcada por uma violência brasileira, decide fazer um documentário. O seu objeto? Dois irmãos: Raquel, uma artista performática de cento e trinta quilos cujo corpo é o seu manifesto e a sua ferida; e Alexandre, um empresário do ramo fitness que ergueu um império muscular na periferia de São Paulo, sustentado por um discurso de ordem e fé. O que os une, para além do sangue, é um episódio público e brutal: Raquel foi agredida com uma barra de ferro à frente de seiscentas pessoas, num debate sobre arte.

 

Laub não nos conta esta história de forma linear. Ele monta-a como um editor genial e perverso. Os capítulos alternam entre os depoimentos de Raquel e Alexandre, entrelaçados com flashes de "material bruto" e "pré-editado" do suposto documentário. E aqui, meus amigos, reside o golpe de mestre. Não há um narrador omnisciente a dizer-nos quem tem razão. Somos nós, leitores, transformados em juízes de um tribunal onde as testemunhas são fanáticas pela sua própria versão da verdade. A Raquel, vítima de um bullying que a moldou, é um "poço de ego ressentido e vingativo". O Alexandre, com o seu discurso de superação que esconde rancores profundos, é chamado de "miliciano" pela própria irmã.

 

E no meio deste duelo de egos, escancara-se a história recente do Brasil. O Plano Collor, que arruinou a família, não é mero pano de fundo; é o golpe inicial que desestrutura tudo. As eleições polarizadas, o ódio social que fermenta nas redes sociais, a exploração da fé, a violência como espetáculo — tudo isto é tecido na narrativa íntima destes dois irmãos. Laub pergunta, sem fazer a pergunta diretamente: a nossa intimidade mais profunda, os nossos rancores familiares, a forma como vemos o nosso próprio corpo e o do outro, não estão definidos pela barbárie política do nosso tempo?

 

Este não é um livro confortável. É "incómodo, pesado e algumas vezes aterrador", como bem notou uma leitora. Os personagens são, deliberadamente, difíceis de digerir. Mas é exactamente por isso que é fundamental. Ele reflecte, como um espelho sujo e partido, a nossa incapacidade de diálogo, a polarização que transforma o outro num inimigo a abater, e a pergunta que paira sobre todos nós: a conciliação é ainda possível, ou é ela própria uma cumplicidade com a barbárie?

 

Para quem gosta da escrita cirúrgica de Laub, de romances que são também diagnósticos sociais implacáveis, ou para quem quer compreender os contornos mais sombrios do Brasil (e, por extensão, do mundo) contemporâneo, Solução de dois Estados é uma leitura obrigatória. Um daqueles livros que, nas palavras de outro leitor, "vira uma chave dentro do cérebro" e nos faz reflectir por dias.

 

Esteja preparado para ser confrontado.

 

Detalhes Técnicos do Livro

  • Autor: Michel Laub

  • Editora: Companhia das Letras

  • N.º de Páginas: 248

  • Dimensões: 14.00 x 21.00 cm

  • Acabamento: Capa mole

  • ISBN: 9788535933796

Solução de dois Estados - Michel Laub

SKU: 9788535933796
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