O Nelson Rodrigues, esse gênio atormentado do nosso teatrinho, não escrevia peças. Escrevia bombas-relógio de desejo e culpa, e "Doroteia" é talvez a mais explosiva de todas.
Imagine a cena: três viúvas, feias feito uma briga de foice, moram numa casa onde não há quartos.
Sim, você leu certo: não há quartos. Dormir? Sonhar? Coisa do demais. Elas usam máscaras, abanam leques freneticamente e têm um único emprego em tempo integral: reprimir qualquer vestígio de prazer, pensamento impuro ou saudade de um abraço. É o clube da luta contra o desejo, versão senhoras de botina.
Eis que, na porta deste convento particular, bate Doroteia. Ex-prostituta, linda, cheirosa, vestida de vermelho-vivo e carregando um jarro de água florido — ou seja, a própria encarnação de tudo que aquelas paredes querem calar. Ela quer mudar de vida, purificar-se. Mas as primas só aceitam uma condição: Doroteia precisa ficar feia.
O que se segue é um delírio surrealista de altíssima voltagem. Homens são reduzidos a um par de botinas desabotoadas que aparecem em cena (a cena mais genialmente constrangedora do teatro brasileiro). Uma noiva que "nasceu morta" aguarda um marido-fantasma. E todas lutam, desesperadamente, contra uma maldição familiar chamada "náusea", que não é de estômago, mas da alma.
Ler "Doroteia" é ser esbofeteado pela genialidade. Rodrigues escancara o absurdo trágico da repressão, a farsa patética do puritanismo, e nos pergunta: o que é mais horrendo, o desejo ou a guerra santa que travamos contra ele?
Esta edição da Nova Fronteira, com seu posfácio e orelha histórica, é o jeito perfeito de ter esta obra-prima perturbadora e necessária na sua estante. Compre, leia e prepare-se para não dormir direito — mas, por favor, não conte para as primas viúvas.
Detalhes do produto
- Editora : Nova Fronteira
- 2ª edição (30 setembro 2021)
- Idioma : Português do Brasil
- Capa comum : 120 páginas
- ISBN-13 : 978-6556402895
- Dimensões : 13.5 x 1 x 20.8 cm
Doroteia - Nelson Rodrigues
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