Venho hoje não apenas apresentar-vos um livro, mas desvendar-vos uma experiência. Uma viagem. Ou melhor, várias viagens, vertiginosas e sem aviso prévio, como os melhores e os piores momentos da vida.
Imagine-se, se for capaz, na pele de Dana. É 1976, em Los Angeles. Dana é uma jovem escritora, negra, casada com um homem branco. Um dia, enquanto arruma livros na sua nova casa, o mundo dá uma volta. A tontura desce e, num ápice, ela está à beira de um rio em Maryland… no ano de 1815. Diante dela, um rapazinho ruivo está a afogar-se. Ela salva-o. A mãe do miúdo grita, acusa-a, chama-lhe nomes. E antes que um homem branco lhe aponte uma espingarda, Dana volta ao seu presente, encharcada e aterrorizada.
Eis o ponto de partida de “Kindred: Laços de Sangue”, a obra-prima de Octavia E. Butler. O que Dana descobre é um laço, um fio invisível e sangrento que a ata àquele rapaz, Rufus. Ele, o filho branco de um dono de uma plantação, é o seu ancestral. A vida dela depende literalmente da vida dele. E assim, sempre que Rufus está em perigo mortal, Dana é arrancada do seu tempo e atirada para o passado escravocrata, para o salvar.
Não vos vou mentir: este é um livro que pesa na mão e na alma. Butler, uma pioneira — a primeira escritora de ficção científica a receber uma Bolsa “Genius” da Fundação MacArthur —, não escreve uma simples aventura temporal. Ela constrói uma máquina do tempo emocional. Cada viagem de Dana é mais longa, cada regresso mais difícil. Ela, uma mulher moderna e independente, vê-se forçada a aprender as regras de sobrevivência mais humilhantes: baixar os olhos, aceitar insultos, fingir submissão. Ela, que é escritora, é proibida de ler para os outros escravos.
A genialidade de Butler está em usar a ficção científica — aqui, um mecanismo de viagem no tempo inexplicado e cruel — para nos fazer sentir a história, como ela própria desejou. Não se trata de ler sobre a escravidão; trata-se de ser atirado para dentro dela, ao lado de Dana. De perceber, com um nó no estômago, como a instituição perverte tudo o que toca, desde o amor até à amizade, e como a linha entre o opressor e o oprimido pode ser terrivelmente ténue.
Através de Dana e do seu relacionamento complexo com Rufus (que vemos crescer de uma criança assustada para um homem que herda todo o poder e os vícios do seu pai), Butler explora questões que ressoam hoje com uma força brutal: o legado da violência racial, as dinâmicas de poder, o peso da história nas nossas costas.
“Kindred” é, portanto, muito mais do que um romance. É um choque. Um espelho. Uma pergunta urgente: o que faríamos nós no seu lugar? Como carregar o peso de ser o elo entre um passado de horror e um futuro de liberdade?
É uma leitura que exige estômago, sim. Mas que oferece, em troca, uma clarividência rara. Uma daquelas histórias que, uma vez terminada, permanece connosco, a habitar os nossos cantos mais silenciosos.
Detalhes do produto
- Editora : Morro Branco
- 2ª edição (18 dezembro 2019)
- Idioma : Português do Brasil
- Capa comum : 432 páginas
- ISBN-13 : 978-8592795870
- Dimensões : 20.8 x 13.6 x 2 cm
Kindred: laços de sangue - Octavia E. Butler
Até 5 dias úteis.



































