“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Sim, caro leitor, o livro começa assim. Com uma dedicatória a um invertebrado. E não é metáfora de poetinha romântico, não. É literal. Já dá para sentir o clima, né?
Pois bem, apresento-vos Brás Cubas. Ou melhor, apresentava: o sujeito já está morto quando decide escrever sua autobiografia. Morreu aos 64 anos, de pneumonia, depois de sair na chuva para promover o "emplasto Brás Cubas", um remédio milagroso (e imaginário) que lhe daria fama eterna. Spoiler: não deu.
Daí, do além-túmulo, com todo o tempo do mundo (e do outro), esse defunto muito bem-humorado resolve contar a sua vida. E que vida: um menino rico e mimado que usava um moleque escravizado como cavalo; um jovem que torrou uma fortanha com uma cortesã; um adultero medíocre; um político frustrado; um filósofo de meia-tigela. Ou seja, um sujeito absolutamente comum da elite do século XIX, retratado com um cinismo e uma ironia que doem até hoje.
Machado de Assis, com esse livro de 1881, basicamente deu um chute no trambolho do Romantismo e inventou o Realismo brasileiro. Mas não aquele realismo sério e pesado. É um realismo descolado. Ele quebra a quarta parede, fala diretamente com você, interrompe a história para divagar, e cria capítulos geniais como "O delírio" e aquele que tem apenas a famosa frase: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
Ler "Memórias Póstumas" é como ter acesso à melhor thread de um falecido cínico no Twitter do século XIX. É ácido, é engraçado, é profundamente triste e é genial. É, simplesmente, uma das maiores e mais divertidas obras-primas já escritas em língua portuguesa. E olha que a gente tem o Pessoa e o Saramago, então pode confiar.
Para quem é este livro? Para quem acha que clássico é coisa enfadonha. Para quem quer rir de (e com) a miséria humana. Para quem aprecia um narrador que, mesmo morto, é mais vivo e perspicaz que muita gente por aí. Em suma: é leitura obrigatória para qualquer um que tenha um cérebro e um fígado (para processar a ironia).
Machado de Assis (1839-1908) é consagrado como o maior ficcionista da literatura brasileira. Autodidata, sua vasta obra inclui romances, contos, crônicas e poesia, e continua a conquistar leitores mundialmente .
Ficha Técnica:
- Nº de Páginas:224
- Ano de Edição:2016
- ISBN:978-989-702-219-7
- Formato:15x23
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
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