Aqui jaz um objeto de capa dura, peso certo nas mãos, que promete, com letras pretas sobre fundo claro, contar-vos sobre baleias que, afirmam, não voam. Eu, sempre duvidei. Quem, afinal, já viu uma baleia erguer-se do oceano e cruzar os céus? Sei apenas que as metáforas, essas, sim, voam com a leveza de um pássaro e o impacto de um meteorito.
Dizem que este Afonso Cruz – e que nome é este que faz lembrar batalhas e interseções? – tece aqui uma história. Falam de um tal de Erik Gould, um homem que não ouve sons, vê-os. Sim, leem bem. Dizem que as notas musicais têm cor e forma para ele, uma sinestesia que não se sabe se é dom ou maldição. Apaixona-se por uma mulher, Natasha, que um dia desaparece como um acorde que se interrompe a meio.
E o filho, Tristan? Ah, o rapaz coleciona objetos importantes numa caixa de sapatos, para quando a morte, sua suposta amiga de infância, lhe bater à porta. Dizem que ele vê emoções. As emoções, meus caros! A tristeza terá a forma de uma pedra? A saudade será um novelo de fio desenrolado? Confesso que duvido, mas a ideia inquieta.
E no meio desta teia de almas sensíveis, insistem em enfiar a Guerra Fria. Dizem que a CIA tinha um plano secreto chamado "Jazz Ambassadors". Em vez de bombas, enviaram Duke Ellington e Louis Armstrong para conquistar corações. Será possível? Pode um solo de saxofone derrubar um muro de ideologia? Duvidar, sempre duvidar. Mas, imaginemos: e se a verdadeira espionagem fosse a do amor, e a verdadeira guerra fosse a que travamos dentro de nós?
Afonso Cruz, dizem ainda, é um homem de múltiplas faces: escritor, músico, ilustrador. Será que um mesmo homem pode ser tantos? Não estará a sua história, esta dos músicos que vêem cores e dos filhos que dialogam com a morte, cheia de camadas sobrepostas como uma aguarela mal seca? Talvez o verdadeiro mistério não seja o desaparecimento de Natasha, mas o modo como todas estas vidas – o pianista, o filho, o tal livreiro coxo que reaparece de outros livros – se entrelaçam, formando uma melodia complexa. Como duas pessoas na rua, cada uma a trautear a sua canção, que de repente se combinam num hino único e inesperado.
O livro tem 280 páginas. É um número finito. Mas quantas interpretações cabem dentro dele? Quantas perguntas sem resposta? E você, leitor ou leitora que chegou até aqui, comprará este volume? Acreditará na história? Ou, como eu, começará por duvidar de tudo – exceto, talvez, da curiosidade irresistível de abrir a capa e mergulhar neste oceano de palavras, à procura da sua própria baleia, aquela que, quem sabe, um dia aprenderá a voar.
Características
- Chancela Companhia das Letras
- Autor(a) Afonso Cruz
- ISBN 9789897847400
- Data de publicação Janeiro de 2023
- Edição atual 1.ª
- Páginas 280
- Apresentação capa dura
- Dimensões 125x200mm
- Género Ficção, Literatura
Nem todas as baleias voam - Afonso Cruz
- Até 5 dias úteis.





































