Já parou para pensar no que é ser ladino? Não, não é só falar português. No Brasil, ser ladino é uma arte, uma contradição que nasceu com os primeiros africanos que aprenderam a língua dos senhores. Eram homens e mulheres traduzindo dois mundos – e, às vezes, usando essa mesma língua para virar a mesa.
E hoje? Hoje, um ladino é aquele que senta num restaurante caro de Lisboa, pede uma garrafa de vinho com três amigos negros – e percebe que aquela cena simples, de pessoas que ganham bem e riem alto, ainda é tratada como um acontecimento raro. É uma psicanalista com doutoramento, um advogado que defende vítimas de racismo, uma escritora de sucesso que viaja para Lyon apresentar o seu romance. Pessoas que, nas palavras de Quito Ribeiro, são "pretos legítimos" e, ao mesmo tempo, "meio Parmalat".
Esta é a matéria-prima de "No Canto dos Ladinos", a estreia literária de Quito Ribeiro, um romancista que já nasceu ladino. (E ele sabe do que fala: é o personagem que introduz Kalaf Epalanga no universo brasileiro e tem canções gravadas por Gilberto Gil e Gal Costa).
O livro é uma agulha fina que cosse com habilidade de montador de cinema – outra das suas profissões – a ficção, o ensaio e o memorialismo. Acompanha Cristiane, Mariana e Érico, três personagens baianos que, sim, vivem em condomínios fechados, viajam para conferências e têm empregada doméstica. São a classe média negra que quase nunca desfila nos romances – ou que estava lá o tempo todo, mas nós, leitores brancos ou malformados, não sabíamos ver.
O grande gesto de Ribeiro não é apenas denunciar o racismo, que está lá, óbvio, à espreita no olhar do maître. É, sobretudo, explorar as fissuras que esse mesmo racismo abre dentro da comunidade negra. A rixa silenciosa entre a cor da pele e o extrato bancário. O isolamento de quem ascende e se sente "playboy" quando um menino negro lhe pede uma Coca-Cola na rua. A angústia da irmã que, por ter a pele mais clara, pode passar despercebida. E o drama da intelectual que é acusada de não ser "preta o suficiente" para falar pela sua própria gente.
Ler "No Canto dos Ladinos" é aceitar um convite constrangedor e necessário: olhar para o espelho da sociedade brasileira através de uma lente que nos foi sistematicamente negada. É, no fundo, perceber que, como diz o autor, "todo preto que escreve é ladino". E que, talvez, ser ladino seja a única forma de sobreviver – e de semear – nos cantos mais inesperados deste país.
📌 Informações Técnicas do Livro
ISBN: 9786556923246
Editora: Todavia
Número de páginas: 112
Dimensões (aproximadas): 20.8 x 13.5 cm (Altura x Largura)
Peso aproximado: 0.162 kg
No canto dos ladinos - Quito RIbeiro
Até 5 dias úteis.





































