Como demonstrado por autores como Marx, Césaire, Fanon e Faustino, a expansão do capital é profundamente tributária do genocídio colonial, sendo o racismo e a evolução dos modos de produção da sociedade capitalista dois fenômenos indissociáveis. As formas de exploração que caracterizaram a acumulação primitiva de capital não foram superadas pelo seu estágio tardio. Do mesmo modo, a violência colonial e a distinção ontológica, fundadas em uma humanidade racial, não foram superadas pelas democracias liberais-burguesas. A partir da preservação da estrutura colonial, as democracias contemporâneas fabricam a adesão social necessária ao discurso fascista, chegando-se até a mesma conclusão de Quijano: “a descolonização é o piso necessário de toda revolução social profunda”.
Tomando como referência a ideia de que o fascismo circula de maneira pacífica na governabilidade neoliberal, e que ações como o justiçamento de Mussolini e o declínio do Terceiro Reich foram insuficientes para eliminá-lo de maneira definitiva, este livro aborda as possibilidades de compreensão do fenômeno através de diferentes abordagens psicanalíticas. Inicialmente, empreende-se um debate que se estende desde a teoria política ocidental, em que o fascismo é pensado enquanto força sui generis — como inovação política do século XX — até a chegada nos pensadores da tradição decolonial, em que o fascismo, para além da implosão do pacto social europeu, representa um ricochete dos processos coloniais no seio da Europa. Na segunda interpretação, rompe-se a clivagem epistemológica inaugurada pela razão ocidental, demonstrando que modernidade e colonialidade não são processos distintos, mas sim interdependentes. Como estratégia para orquestrar a dinâmica metapsicológica do discurso fascista, abordada tanto como movimento orgânico de massas, quanto como condição latente e intrínseca às democracias liberais-burguesas, percorre-se um caminho que se inicia desde uma perspectiva naturalista da economia libidinal em Freud, especialmente em sua dimensão mito-política, até escolas de pensamento consideradas “pós-psicanalíticas” que abrem gradualmente para o diálogo com os determinantes sociais. A Escola de Frankfurt encabeçada por Adorno, as metapolíticas que flertam com o marxismo em Reich e Bataille, bem como a Filosofia da Diferença em Deleuze e Guattari, inauguram a possibilidade de compreender a adesão psicológica e inconsciente aos regimes fascistas para além de um determinismo viciado, mas como retrato fidedigno das forças sociais. Em outras palavras, trata-se do quanto os derivados coloniais, a discursividade fascista e as tendências patriarcais que constituem o aparato moderno se atravessam no desenvolvimento psicossexual, freando o potencial revolucionário de Eros e constituindo formas fascistas de existência.
Bryan Menger dos Santos é psicólogo, pesquisador e escritor, graduado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (pucrs) através do ProUni; mestre no Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura da ufrgs (ppgclic); psicoterapeuta de orientação psicanalítica em formação nos Estudos Integrados de Psicoterapia Psicanalítica (esipp). É militante antifascista independente. Tem como linhas preferenciais de pesquisa: a economia sexual do fascismo; a importância do inconsciente na vida política de massas; bem como a produção de uma psicanálise decolonial, politicamente implicada.
Detalhes do produto
- Editora : URUTAU EDITORA; 1ª Edição; 21 julho 2024
- Idioma : Português do Brasil
- Número de páginas : 148 páginas
- ISBN : 9786587814353
- Dimensões : 1.11 x 15.5 x 21 cm
Psicanálise, Fascismo e (de)colonialidade - Bryan Menger Dos Santos
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