O mapa do tesouro que nos roubaram (e como o Ale Santos o desenterrou)
Já repararam como a história é uma espécie de senhora muito selectiva? Tem uma memória de elefante para guardar datas de batalhas de impérios que já viraram pó, mas sofre de uma amnésia conveniente quando o assunto é lembrar-se de certos heróis. É como se houvesse um arquivo, um armário empoeirado num canto escuro, onde foram parar todos os retratos que não davam jeito mostrar. Pois bem, o escritor e pesquisador Ale Santos – esse paulista com mania de desenterrar o que achavam que estava enterrado para sempre – resolveu não só abrir esse armário como também arejar as ideias dentro dele. O resultado é Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro .
A edição que chega agora à LULALIVROS.PT, com o cheiro de livro novo e a promessa de um abanão na nossa visão do passado, é a mais recente, revista e ampliada pela HarperCollins . São mais de vinte histórias, e quando digo histórias não estou a falar de contos de fadas com princesas à espera de um salvador. Estou a falar de gente como Nanny, uma rainha que na Jamaica liderou o seu povo com uma coragem que até os manuais de estratégia militar deviam estudar . Ou do Chico da Matilde, o Dragão do Mar, um jangadeiro cearense que, num acto de rebeldia sublime, se recusou a transportar pessoas escravizadas para o Sul do país . Um homem, uma jangada e um "não" que ecoou mais alto do que muitos discursos. E o que dizer de Zacimba, princesa guerreira em Angola que, reza a história, invadia navios negreiros para libertar o seu povo? Sim, leu bem. Invadia navios. Se isto não é argumento para um filme de acção, então eu não sei o que é.
Ale Santos, com a precisão de um arqueólogo e a paixão de um contador de histórias, pega nestas figuras – do Brasil, de África, das Américas – e tira-lhes o pó a que a história oficial as condenou. Devolve-lhes o lugar que é delas por direito: o de protagonistas . Não é um livro que se limite a listar datas e nomes de difícil pronúncia. É um livro que nos apresenta Benedito Meia-Légua, Benkos Biohó, Tereza de Benguela e tantos outros como aqueles amigos de um amigo de quem já ouvimos falar maravilhas, mas que nunca tivemos o prazer de conhecer . E, acreditem, depois de ler este livro, vão sentir que os conhecem. E vão sentir uma certa vergonha de não ter ouvido falar deles na escola.
O rapper Emicida, no prefácio, define a obra como "um mapa que nos conduz por uma trilha em que os fragmentos da história nos levam a encontrar o tesouro escondido" . E é isso mesmo. Um mapa para um tesouro que sempre foi nosso, mas que insistiram em nos esconder. Um mapa desenhado com a tinta da resistência e a régua da justiça.
Portanto, caro leitor, se está cansado das mesmas histórias de sempre, contadas pelos mesmos de sempre, e quer aventurar-se por um território novo (que na verdade é velho, mas estava sonegado), Rastros de resistência é o guia perfeito. Não é apenas um livro. É um acto de desobediência literária. É um tapa na mesa da História. E, já agora, uma leitura daquelas que aquecem o coração e acendem uma fogueira na mente. Venha daí desenterrar este tesouro connosco.
Ale Santos é um escritor, roteirista e pesquisador paulista, conhecido pelo seu trabalho no gênero afrofuturismo e por resgatar histórias da cultura negra . A sua obra de estreia foi precisamente "Rastros de resistência"
Detalhes do produto
- Editora : HarperCollins
- Data da publicação : 16 junho 2025
- Edição : 1ª
- Idioma : Português do Brasil
- Número de páginas : 224 páginas
- ISBN-13 : 978-6555117059
- Peso do produto : 350 g
- Dimensões : 15.5 x 1.1 x 23 cm
Rastros de resistência: Histórias de luta e liberdade do povo negro - Ale Santos
Até 5 dias úteis.



































