Originalmente publicado em 1974, o livro é escrito em primeira pessoa. “Meu nome é Kathy Acker. A história começa comigo totalmente entediada”, declara a autora. E sua prosa, escrita no ritmo do pensamento, convoca quem lê a embarcar em sua viagem vertiginosa. Um sonho se repete e, com ele, parágrafos inteiros reaparecem, em um exercício literário no qual conteúdo e forma são inseparáveis um do outro. A cada capítulo, Acker já não é ela mesma, e as personagens nas quais se converte contam suas histórias de prazeres, vícios, delírios. Mais do que produzir um discurso supostamente verdadeiro sobre sexualidades, o livro experimenta múltiplas possibilidades do corpo, do gênero e da linguagem. E para quem espera uma escrita frenética sobre prazeres, o livro surpreende. Acker consegue articular sua experimentação a cenários muitas vezes compostos por instituições disciplinares -- escolas, hospitais, prisões -- que modulam os desejos e possibilidades de nossas vidas. Parece ser também de suas amarras que a autora busca escapar.
Acker nasceu em Nova York por volta de 1947. Já foi considerada a Patti Smith da literatura pós-punk, bem como a próxima Henry Miller. É lembrada também como precursora da literatura experimental, até então dominada por homens. Viveu e retratou a cidade de Nova York nos anos 1970 e 1980, circulou entre vários meios, foi fotografada por Robert Mapplethorpe e Allen Ginsberg, performou com Genesis P-Orridge e jogou xadrez com Salman Rushdie, além de ter tido apoio de artistas como o minimalista Sol LeWitt. Sua escrita também se tornou roteiro para o filme Variety (1983), de Bette Gordon, com participação de Nan Goldin.
Os livros de Acker, à época que escrevia, circularam em um nicho específico, e não foi incomum que as pessoas que entraram em contato com eles tenham se tornado escritoras. Enquanto suas personagens extrapolam qualquer limite dos binarismos gêneros, sua escrita tampouco cabe em gêneros literários canônicos e é marcada pela experimentação. Acker intercala ficção a acontecimentos históricos, como a revolta de Haymarket, em 1886, bem como o posterior julgamento dos "7 de Chicago". Articula, ainda, autoficção a escritos de outrem e fabula vidas de pessoas como Moll Cutpurse ou Janis Joplin.
Além de Despentes, a banda Bikini Kill relembra a importância da autora sempre que pode. Seus textos, construídos por sobreposição e colagem, remetem ao cut-up de William Burroughs, autor que a definiu como uma “Colette pós-moderna” que “dá a seu trabalho a potência de espelhar a alma de quem o lê”. Seu trabalho de prosa começou em 1972 com uma escrita baseada em sua experiência pessoal exposta de forma crua, constituindo um análogo literário a movimentos da moda, música e artes visuais de sua época.
Após a autora cruzar o oceano e desembarcar em Londres, em 1981, a prosa de Acker atingiu a cena de jovens ingleses desencantados com o neoliberalismo e a sensação de “no future” frente à era Tatcher. Acker se tornou, ali, um ícone underground e extrapolou seu interesse formal da literatura para outros aspectos de sua vida, experimentando a linguagem em seu próprio corpo com bodybuilding, BDSM e tatuagens.
Ainda hoje, sua obra tem grande repercussão e aparece em museus ao redor do mundo, bem como em estudos acadêmicos de pessoas interessadas tanto pelas possibilidades de experimentação com a linguagem como com o gênero.
Acker morreu precocemente de câncer de mama em 1997, após se recusar ao tratamento e ir viver em Tijuana.
Detalhes do produto
- Editora : Crocodilo Edições; 1ª Edição; 1 janeiro 2024
- Idioma : Português do Brasil
- Número de páginas : 104 páginas
- ISBN; 9786588301210
- Dimensões : 14 x 1.4 x 21 cm
Sonhei que era ninfomaníaca - Kathy Acker
- Até 5 dias úteis.





































