Permitam-me, se faz favor, um momento de franqueza algo incómoda. Estamos saturados, não estamos? Saturados de histórias efémeras, de romances que se desfazem como açúcar no café, deixando-nos com o sabor doce do nada. Por isso, peço-lhe um minuto de atenção para algo diferente. Para algo com peso, com raiz e com sal.
Apresento-vos "Um Adeus no Cais do Sodré", de Juca Serrado. Não se deixe enganar pelo título, que poderia sugerir um melindre qualquer. O que aqui temos é terra. Terra de Portugal, nas veias de Dom Manoel Ferreira, e terra do Brasil, na promessa (ou seria ameaça?) das Minas Gerais para onde empurra os seus dois filhos em 1875. É deste adeus forçado que nasce uma saga familiar que é uma espinha dorsal: rija, complexa e a segurar tudo o que se segue.
O autor, um homem do Rio de Janeiro com passagem pelo mercado financeiro – sim, leu bem –, não escreve com a pena, escreve com a pá do arqueólogo. Desenterra-nos um mundo. Transporta-nos não para um "scenario" qualquer, mas para as ruas vivas do Rio de Janeiro de João do Rio, onde o cheiro dos livros novos se misturava com o dos bordéis. Faz-nos sentir a paz opressiva da Fazenda Bom Retiro e o peso moral de uma herança que é tanto de hectares como de culpas – culpas de um tempo de escravatura, ganância e violência que Serrado não tem receio de nomear.
No centro está Pedro do Ferreira, o neto. Um homem a navegar entre dois mundos, entre a herança lusa e a realidade brasileira, entre a lei dos tabeliães e a lei do coração. Acompanhámo-lo desde a infância, partilhando o seu olhar sobre os descendentes de escravizados, seguindo-o até à faculdade de Direito, espreitando os seus amores e desilusões. É através dele que aprendemos a lição mais dura e mais bela do livro: que a prosperidade, a verdadeira, não está no ouro que se extrai da terra, mas na união que se cultiva na família. É um reinado sagrado, conquistado a pulso contra a mentira e a cobiça.
Portanto, caro leitor, se procura um romance que é apenas um passatempo, siga em frente. Mas se sente falta de uma história que lhe pegue na mão e lhe mostre, com elegância narrativa e uma pesquisa impecável, os alicerces de pedra de duas nações e de uma única família dividida pelo Atlântico, então este é o seu livro. "Um Adeus no Cais do Sodré" não é uma leitura, é uma viagem de regresso. Um regresso a um cais, a uma fazenda, a uma memória que, afinal, também pode ser nossa.
É, sem dúvida, uma das sagas familiares portuguesas mais marcantes dos últimos tempos.
Juca Serrado nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1957. É casado, pai de dois filhos e tem duas enteadas. Estudou Arquitetura e Economia, e trabalhou no mercado financeiro por mais de uma década. Escreveu para uma revista especializada sobre o mercado financeiro, tendo inúmeras cartas publicadas em jornais. Publicou "O Turco" (2017), uma visão pragmática sobre a ética e a moral e "Sob o olhar do guardião" (2019), uma ficção que envolve os segredos da estátua do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. "Um adeus no Cais do Sodré" é o seu terceiro romance, uma saga familiar que une Portugal e Brasil.
Detalhes do Produto
- ISBN: 9789899069558
- Ano de edição: 09-2025
- Editor: Gato Bravo
- Idioma: Português
- Dimensões: 143 x 213 x 16 mm
- Encadernação: Capa mole
- Páginas: 328
Um Adeus no Cais do Sodré - Juca Serrado
- Até 5 dias úteis.





































