Ao ler os aforismos de O dia e a noite, Roberto Bolaño não hesitou: este é “um livro precioso”. Redigidos ao longo de décadas e publicados depois da Segunda Guerra Mundial, os pensamentos de Georges Braque (1882-1963) são fruto de uma lenta decantação verbal de sua experiência humana e artística. Pois Braque, nome central da pintura moderna, parceiro de Picasso na aventura do cubismo, artista fértil e longevo, foi também homem de letras. Próximo de grandes poetas como Pierre Reverdy e René Char, leitor patente da longa tradição francesa das máximas e sentenças, o pintor é capaz tanto de formulações oraculares (“Sensação, revelação” ou “O perpétuo e seu sussurro de nascente”) como de apontamentos sibilinos (“O conformismo começa pela defi nição” ou “As provas exaurem a verdade”). Mas o leitor não encontrará aqui um corpo organizado de doutrina, pois o essencial para Braque é “ter sempre duas ideias, uma para destruir a outra” e, com isso, estar à altura do mandamento máximo para a vida e para a criação: “manter a cabeça livre: estar presente”. Atingido esse estado, extintas “todas as veleidades”, nós talvez percebamos que “tudo é sono ao nosso redor” – e que “a realidade só se revela quando iluminada por um raio poético”.
Nascido em 1882, em Argenteuil, na França, Georges Braque cresceu em um meio artesanal de pintores-decoradores. Começou a estudar belas-artes ainda jovem, no Havre, para depois seguir os estudos em Paris, onde se instalou nos primeiros anos do século XX. Uma vez ali e imerso em um meio artístico em plena efervescência, cumpriu rapidamente um percurso que, marcado de início pela influência de Matisse e dos fauves, levou-o a um estudo aprofundado de Cézanne e, já a partir de 1907-1908, a suas primeiras telas de marca a um só tempo pessoal e radical, entre as quais alguns nus e diversas paisagens de L’Estaque. Entre 1908 e o começo da Primeira Guerra Mundial, protagonizou ao lado de Picasso os anos heroicos de reinvenção da pintura em chave “cubista” ― então, um neologismo recente. Ferido em combate em 1915, só voltaria a pintar ao fim do conflito, inaugurando uma longa e fértil atividade em que a experiência cubista foi se desdobrando em outras direções, quase sempre a partir de alguns motivos visuais constantes, como os pássaros e os instrumentos musicais. Durante a Segunda Guerra Mundial, permaneceu na França, mantendo ciosamente distância tanto dos invasores nazistas como do regime do marechal Pétain. Depois da guerra, prosseguiu produzindo com constância até seu falecimento em Paris, em 1963.
Samuel Titan Jr. nasceu em Belém, em 1970. Estudou Filosofia na Universidade de São Paulo, onde leciona Teoria Literária e Literatura Comparada desde 2005. Editor e tradutor, organizou com Davi Arrigucci Jr. uma antologia de Erich Auerbach (Ensaios de literatura ocidental) e assinou versões para o português de autores como Adolfo Bioy Casares (A invenção de Morel), Charles Baudelaire (O Spleen de Paris), Gustave Flaubert (Três contos, em colaboração com Milton Hatoum), Jean Giono (O homem que plantava árvores, em colaboração com Cecília Ciscato), Voltaire (Cândido ou o otimismo), Prosper Mérimée (Carmen), Eliot Weinberger (As estrelas), José Revueltas (A gaiola) e Blaise Cendrars (Diário de bordo).
Detalhes do produto
- Editora : Editora 34, 1ª Edição; 16 janeiro 2025
- Idioma : Português do Brasil
- Número de páginas : 64 páginas
- ISBN: 9786555252095
- Dimensões : 13 x 1 x 20.5 cm
O dia e a noite (cadernos, 1917-1952) - Georges Braque
- Até 5 dias úteis.





































